Algumas pessoas passam por este mundo e não tem como passarem despercebidas. Tem gente que é diferente. Não sei se é uma luz especial que emanam, um carisma acima da média. Enfim, quando estamos perto de alguém assim, dá pra sentir, dá pra sacar.

Ela foi uma dessas pessoas. Acredito que desde sempre. Ana Maria Sanjuan Heredia, foi o nome que recebeu de seus pais no batismo, em 1947. Espanhola, filha caçula e dois irmãos mais velhos. Pai catalão e mãe “maña”, ou melhor, aragonesa. Nasceu em casa, na Carrer dels Ollers, em La Selva del Camp, um pueblo da província de Tarragona, escolhido por seu pai médico, Dr Luis Sanjuan, para viver com sua família. O clima foi um dos fatores que o fez tomar essa decisão. E realmente ele tinha muita razão, próximo à praia, próximo à montanha, lugarzinho pinçado. Quem já foi à Tarragona sabe o que estou falando.

A infância é uma fase que forma caráter, que acabamos levando pra toda vida. Muito novinha já pegava o trem pra ir à escola em outro “pueblo”. Seu pai, com certeza priorizava a formação dos filhos. Todos foram para Madrid ou Barcelona em busca do ensino superior.

Ela, sempre diferente, e muito, mas muito linda, fez duas universidades, ao mesmo tempo, Bioquímica e Farmácia. Muito comum porque os cursos acabam se complementando.

Assim que se formou tinha duas opções. Ou voltaria para seu pueblo, onde estavam os seus pais, Dr Luis e D Aurora, ou seguiria em Barcelona, agora em busca de seu doutorado.

Seu padrinho, Doctor Puigvert, urologista bastante famoso na Catalunha e no mundo, cedeu um espaço no

Hospital pra que ela iniciasse suas pesquisas para a tese, sobre cálculo renal. Mas, como não existe coincidência e sim providência, nesta mesma época um brasileiro, chamado Geraldo de Campos Freire, havia terminado sua residência em Urologia na USP, e foi a Barcelona, estagiar com Dr Puigvert. E encontrou, essa menina linda, com

23 anos, fazendo pesquisa. Começaram a se conhecer. Namoraram. E se casaram! Tudo isso em 3 meses!

Esse jovem urologista brasileiro, com sua espanhola “embaixo do braço”, foram ainda morar em Paris, Londres e em Durham, North Carolina (EUA), quando engravidou da sua primeira filha, dos quatro que tiveram.

Um casamento muito sólido, que tinha tudo pra dar errado, pois as culturas eram muito diferentes, ninguém conhece ninguém em menos de três meses, muito menos pra passar o resto da vida juntos, em um país em que não se fala a língua, onde a saudade de comer um belo “pa amb tomàquet” ou um “calçots” só aumenta. Quando não tem WhatsApp pra falar com a família e muito menos FaceTime. Mas ela venceu. Fez do seu núcleo familiar um pedacinho da Espanha. A visita anual (quando não era semestral) a Espanha passou a ser regra. Não só pra ela, mas pro marido, pros filhos e netos.

Mas como? Como ela conseguiu? Como fez tantos amigos num país que não conhecia nenhuma alma viva? De onde vinha tanta alegria de viver, mesmo com as dificuldades que a vida vai nos jogando enquanto estamos nessa caminhada? De onde tirou a força? Uma força que seria muito necessária lá no fim de sua vida.

Só tem uma resposta: seu amor cego e infinito por Jesus Cristo. Era na sua missa diária que o comungava com muita alegria, sem ser aquela obrigação chata de ter que ir a missa, e sim de um encontro delicioso que teria com Ele, que alimentaria naquele dia a sua alma. Uma Fé enorme. Uma Fé verdadeira que não teve jeito, acabou contaminando todo mundo que conviveu com a grande Ana. Uma Fé que não podia ser guardada só pra ela. Quantas conversões! Quanta gente ela pode ajudar, mostrar o caminho certo, de situações corriqueiras da vida até o verdadeiro motivo de nossa existência.

Em 2015, aquele golpe que nenhuma família quer (e nunca espera!), muito menos de uma pessoa tão resolvida, tão alegre, tão cheia de vida e com tanta coisa pra fazer ainda por aqui, atingiu a todos. Um câncer no pâncreas que quebrou uma infinidade de paradigmas, inclusive da medicina. O prognóstico era que ela viveria um ano. Ela viveu 3 anos. Mas bem vividos. Viajou várias vezes pra sua Espanha. Conheceu mais uma neta. Enfrentou duas cirurgias enormes, quimioterapias variadas, mas sempre entrou e saiu do hospital arrumada, com seu lenço, perfumada, com cabelo penteado (quando lhe faltaram, caprichava no chapéu), brincos, colares e batom vermelho e blush bem cor do sol mediterrâneo. Ela distribuía sorrisos. Uma aula ambulante de como se enfrenta essa doença que mais parece uma sentença. Desde a recepção do hospital até as enfermeiras do “box da quimio”, todos, conheciam a D. Ana. Ela comemorou lindamente seus 70 anos, pensou em cada detalhe e quase deu tempo de comemorar suas Bodas de Ouro.

Seus últimos 40 dias internada, pareciam os 40 dias de Jesus no deserto. Se preparando para a partida. Não deixou de pedir a comunhão diária, não deixou de se confessar, não deixou de receber o sacramento da Unção dos Enfermos e nem de rezar o terço. Priorizou aquilo que realmente importava e mostrou a todos que estava se preparando. Muito mais importante que remédios para o corpo e para dor, era receber os remédios da alma. Mostrou que estava pronta. Com todo aquele sofrimento, ainda dançou sevillanas, flamenco, trocava receita de paella com os médicos, e perguntava com um sorriso: “qual é o almoço hoje? Deixa eu ver o seu?”. Nos seus últimos dias, mais de uma vez, via sua súplica silenciosa: “Meu Deus, tende piedade de mim”. E Ele teve. Como não teria? Com uma filha que nunca o abandonou? Que o visitou diariamente e o recebia na Comunhão? Ela teve um AVC, que foi a maneira escolhida por Ele, para ir apagando essa linda espanhola e ir desligando essa guerreira incansável da Terra. Sua missão foi lindamente cumprida. Se ela pudesse falar alguma coisa a todas as pessoas que a amam, que sofrem de saudades, ou até para você que parou alguns minutos para ler esta história de vida, ela diria:

“Não chorem por mim. Chorem por vocês. Eu já cumpri minha missão, já passei na prova da vida e hoje desfruto do Paraíso, junto a Deus Pai Criador, Deus Filho, Deus Espírito Santo, Nossa Senhora e todos os Anjos e Santos. E vocês? O que farão a partir de hoje para conquistar o céu?”.

 

Por Isabel Sanjuan de Campos Freire Martins

 

Publicado em 12/04/19
SOBRE MIM

Sou Virginia Abdalla, jornalista há mais de trinta anos. Ao longo desse tempo, assinei coluna social autoral, nos diários Jornal da Manhã e Jornal de Uberaba, trabalhando com conteúdo ético e abrangente. Espaço aberto para reportagens sociais e voltado também para comportamento, lifestyle, moda, cultura, gastronomia, ciências e tendências. Editei cadernos especiais de jornais e revistas, comandei programa de entrevistas em TV local e integro o quadro de colaboradores da publicação JM Magazine,  sempre procurando destacar pessoas pelo seu talento e fatos pela sua importância transformadora.
 Este é o foco do meu trabalho jornalístico, em prospecção para este Blog, on line desde 2012 - um novo e necessário caminho para fincar os pés no presente e tecnológico universo.
Sou graduada em Pedagogia pela Faculdade de Ciências e Letras Santo Thomaz de Aquino - com especializações no setor - e pós-graduada em Educação Latu Sensu pela Universidade de São Carlos. Empresária, mãe, avó, filha e mulher que eventualmente se permite expressar através de produções de arte sustentável.

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